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Corrida Iguatemi Campinas 11k Corpore

 

 

 

Tinha sofrido muito em 2005 por inúmeros motivos. Não queria sair do quartel e perdi emprego numa financeira onde acreditava ferrenhamente que aquele era meu lugar de sucesso.

No quartel descobri que estava sendo treinado para as operações especiais que atuariam na pacificação do Haiti. E a financeira numa cidade vizinha, prometia supostamente um crescimento financeiro e que mudaria - pelo menos em partes - minha situação no momento caso eu batesse as metas diárias.

Não atingi as metas e em janeiro de 2006 me desligaram. 6 meses antes o exército havia dispensado, só ficando 5 dos 120 soldados. Isso é uma longa história pra outro dia.

Em ambos os locais eu teria uma coisa que há anos eu não tinha, em nenhum lugar; justamente por ser jovem, homem, negro, ex-vendedor de doces e morador de favela: Respeito.

As 2 chances se foram. E uma tentativa de "patrocinar" um livro que escrevi acabou em confusão porque fui confundido com um sequestrador que rondava um prédio da moradora que iria me ajudar. O pastor da igreja que sabia disso tudo e da verdade "caiu fora".

Fiquei chateadíssimo, a beira da depressão.

Outra coisa "espiritual" estava envolvida. E para resolver tudo isso demorou anos...

 

E num embalo de um ex-colega de trabalho, que alegou fazer uma corrida de rua, o que eu decidi? FAZER UMA!

 

Como os treinos do quartel estavam "frescos em minha memória" decidi me inscrever. 

 

Naqueles dias as coisas eram simples. Me inscrevi no balcão não lembro onde. Levei $30,00 e tive um kit legal. A camiseta uso até hoje. Relíquia. Achava tudo aquilo mágico; até os folhetos de propaganda. 

 

Fui pra casa animadíssimo. Nem dormi a semana INTEIRA! Em fase treinamento num novo serviço de call center eu não pensava em outra coisa a não ser na corrida. A pulsação era tão forte que ás vezes eu via "estrelinhas" no meio do treinamento. 

 

Aí chega o dia da largada. 

 

Faço o aquecimento que nem militar. Ando pelo Iguatemi. Não conheço ninguém. A animação.... meu Deus.... de todos era.... meu.... era surreal!!!! Parecia um sonho! Não queria acordar mais. 

 

E sabe o que eu achava? Que eu iria ganhar alguma coisa. Até pensei em pódio! Inacreditável!!! 

 

O uniforme, a roupinha simples da foto tenho até hoje. O tênis, que era chamado de "carnicinha" no quartel é na verdade uma chuteirinha de pano de fut-sal. Quase furadoEra com aquilo que eu pensava que ia ganhar uma corrida? SIM! Tinha ido na igreja dias antes; pedi orações pra que tudo desse certo.

 

PRÉ-LARGADA. 

Estava ansioso demais! Mal me lembro de tudo. 

 

 

LARGADA! 

Aí quase morri. Disparei até onde podia. Claro que deu um cansaço extremo. E foi aí que pela primeira vez vi o Adriano Bastos, quando era cabeludo passar por mim. Não havia pelotão de elite e mesmo assim fico sabendo que ele liderou e ganhou a prova. Me impressionei! 

 

Mas aí na primeira curva o cadarço desamarra, o chip escapa e quase cai no bueiro. Parei para amarrar. Muita gente passava e o tempo passava... né.... e... tive o primeiro desgosto.

 

Ué.. mas ... o que o quartel ensinava sobre corrida? Pensei que eu ficaria lá na frente, com a TV filmando e a galera gritando...

 

Mas não fiquei. Tudo era ... diferente...

 

Não me lembro de todo o trajeto e a sensação.... só sei que quando cheguei no final, quando passei a linha de chegada, chorei.

 

Desabei em lágrimas. 

 

Andava perambulando e mancando, cheio de dores.

 

A alegria tomou conta. Nunca senti isso antes. Desejaria ter al sensação novamente. Nunca mais senti aquilo.

 

Mas fui sozinho. Não conhecia ninguém. E não compartilhei essa sensação com ninguém. Por isso, enxuguei os olhos, engoli o choro e fui para o guarda volume.

 

Tiraram uma foto quando pedi, o fotógrafo estava indo embora. A sensação de alegria me fez desligar e só me lembro da premiação e de mais nada depois disso. 

 

Quando soube que tinha que pagar a foto, fui numa lan house e pedi para um amigo meu tentar retirar da internet. Hoje se chama "print screen". E eu nem sabia fazer isso. 

 

Uma semana depois fui à igreja e perguntei a meu Senhor:

 

"O que eu faço da minha vida"?

 

"Meu filho! Só vou manter seu coração batendo".

 

E foi assim que entrei no mundo da corrida de rua. 

 

E era só o começo. 

 

 

Foram 50:13 que mudaram minha vida.
Passei o ano inteiro decidindo se queria mergulhar nisso. Na virada do ano, na igreja, pedi e determinei que fosse diferente.

Eu estava, definitivamente, feliz com o que encontrei.

E o sofrimento que eu sofria; preconceito, racismo, ignorância ... poderia acabar. Pelo menos na minha vida. No mínimo aos poucos.

Uma chance de liberdade se aproximava.

 

Não sei dizer que foi um renascimento; o quartel influenciou em muita coisa.
Mas era uma nova fase.

2007 entra, com mais esperanças ainda!


Isso é tudo.

 

 

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